Com um gesto leve como um sorriso assentiu às afirmações de Nina. Dedilhava sua xícara acompanhando com o olhar seus próprios dedos. Bebericava o café tentando eternizar impulsivamente o ato banal. – Sim, e pensar que é o lugar mais seguro. Imagine então o perigo que corremos aqui. – Afirmou um pouco disperso com a conversa. A seriedade do assunto certamente não era de seu interesse. Após tantos momentos felizes com a garota sentiu que jamais estariam degustando realmente de certa alegria até sumirem da civilização mágica. As mortes, as torturas e a guerra em si não eram atos sagazes ao ver de Henri. Ainda que não fosse a alma mais pacífica conhecida não podia deixar de se afirmar que era completamente a favor da impossível reconciliação entre as camadas bruxas. Era burrice lutar por algo tão idiota com uma diferença de sangue. Lorde Voldemort era apenas um bruxo esperto que usou um motivo bobo para ascender no mundo mágico. – Sei que vai ser difícil fazer você ignorar as suas próprias notas. Mas, porque não dá um sossego pras cartas da sua mãe. Eu faço isso há séculos e nunca perdi muita coisa. O que ela fala com você por elas? Sobre o que estará bordado nos nossos guardanapos ou o tipo de flores que teremos no nosso casamento. Nina, por favor, certo? Esquece ela. – Disse com um semblante mais descontraído e engraçado. Esboçou um leve sorriso e comeu o último pedaço de seu croissant. Sorriu. – Ninguém pode nos obrigar a fazer nada! – Continuou triunfante com os olhos fixos nos de Nina que se desviavam encontrando as janelas longas que refletiam o sol brando. Movia seus dedos sobre os da prima com um sorriso suave acompanhando o olhar da jovem. Pensou então no quanto seria perfeito quando saíssem da escola e fossem morar por um tempo em seu atelier. Manhãs tranquilas com pinturas e livros ao som dos dedos pianistas da jovem, tardes divertidas cheias de passeios no Sena com piqueniques ao ar livre e noites quentes e apaixonadas. Sua mente fraquejava tanto entre pensamentos felizes que demorou a perceber que Nina se movia. Envolveu seus olhos nos dela e manteve uma expressão séria, porém serena. Quando Nina encostou com os dedos em seus cabelos e depois os deslizou até as sobrancelhas conseguiu finalmente relaxar. Esboçou um suave sorriso e fechando os olhos retribuiu o beijo da moça. Passado tão pouco tempo já tinha se esquecido de como os lábios da moça eram tão desejáveis e deliciosos. Sentindo o sabor do amor em sua boca pousou com as mãos na cintura de Nina e, percebendo a diferença de altura, pensou no quanto esta lhe parecia indefesa. O beijo delicado começou a ficar mais intenso. Com um gesto sutil aproximou a prima e a apertou singelamente. O calor dos dois aquecia principalmente seu coração. Só não queria que ela fugisse. Que sumisse nos campos de lavanda como em seu pesadelo anterior. Queria tê-la para sempre. Ama-la para sempre.
Para Nina, Hogwarts não era mais, infelizmente um lugar seguro. Era tão claro quanto um copo d’água que o mundo fora do colégio bruxo era perigoso, mas não existia muita diferença de periculosidade entre o mundo mágico e o mundo trouxa. Bufou de leve quando Henri lhe perguntou de forma quase retórica o conteúdo das cartas de sua mãe. Durante a semana que havia ficado sem falar com o primo, Anna Karenina mandou-lhe duas cartas, uma falando sobre a iminência das provas em Hogwarts e de como ela desejava que as notas de sua filha continuassem máximas e, se caso o contrário acontecesse, a mandaria, nas férias de verão, para Moscou, onde ficaria no apartamento de seu tio Dimitri, que era uma pessoa absurdamente dogmática, infantil e insossa; porém, era um grande estudioso da Astronomia, área a qual Nina sempre tivera grande apreço. A segunda carta, falava exatamente das flores do casamento: “Angélica é uma boa opção, já que você é uma bruxa do sim, assim como seu futuro marido é um feiticeiro meridional.”. Nina revirou os olhos discretamente ao lembrar-se de parte do conteúdo ridículo das cartas que havia recebido. Abriu os lábios, soltando um suspiro que a relaxou completamente, apagando os pensamentos relacionados à sua mãe e a qualquer outro membro da família que não fosse Henri.- Sim, ninguém pode nos obrigar a fazer nada. – repetiu num murmúrio e esboçando um sorriso, voltando a encostar sua boca na do jovem ravino. Apertou seu corpo contra o do primo quando este lhe puxou para mais perto, massageou sua nuca calmamente enquanto seus lábios mantinham um ritmo agradável, que descompassava levemente a respiração quente de ambos. Tudo parecia ótimo, sereno e ideal. Nunca mais queria sair da porta daquele atelier, a não ser para explorar o mundo junto a Henri. Fazer viagens, descobrir os cantos e ruelas pouco conhecidos de Paris, aprimorar seus estudos ao piano e iniciar sua prática em guitarra espanhola; seria perfeito acordar com o cheiro de tinta fresca vindo da parte do pequeno apartamento a qual o rapaz pintava e guardava suas obras, poderia ajuda-lo a ter inspiração para cores e formas enquanto enchia o ambiente com as notas sonoras e lindamente melódicas vindas de seu piano. Nina desceu uma das mãos até chegar ao laço do robe do rapaz e o desfez lentamente. Prensou seus dentes nos lábios cheios de Henri – nunca cansaria de fazê-lo, simplesmente adorava aqueles lábios rosados, polpudos e macios, seu gosto misturado ao dela, como se fosse apenas um. Afastou-se quase que imperceptivelmente para que pudesse recuperar seu fôlego e roçou os dedos no tecido cetinoso que o primo vestia, abaixando-o até que pudesse sentir a pele de sua mão em contato com a do peitoral de Henri. Fitou-o com amabilidade e desejo enquanto despia seu próprio casaco comprido, analisou o local em que estavam e este não lhe pareceu um bom lugar para que pudessem repetir o que fizeram na noite anterior. Levantou o rapaz da banqueta a qual estava sentado e o beijou novamente, deixando que o robe que ele trajava caísse no chão de madeira. Apartou-se do corpo de Henri e andou calmamente em direção ao sofá de couro negro, no qual se sentou de pernas cruzadas. Sorriu sugestivamente, mas com uma graça inigualável e logo após, comprimiu os lábios, reprimindo uma risada e desviou o olhar para a janela próxima, que deixava a luz solar fartar a sala com toda sua quentura agradável.
Continuou a observa-la exalando tanta suavidade nos atos metódicos e tão genuinamente delicados. Colocou os cotovelos no balcão e expressou o sorriso mais brando que um homem apaixonado poderia esboçar. Estava tudo certamente mais lento. O vapor quente e úmido do café dançava na face da jovem e o brilho singelo da luz solar reluzia sobre os cabelos escuros, enquanto seu robe simples oscilava com seus passos distraídos. O viu e falou. Queria saber se havia dormido bem. Nada mais simples e banal. Mas, sua reação foi confusa. Sua alegria se esvaiu de suas feições suaves. Nem mesmo o toque morno dos lábios da jovem o fizeram voltar a normalidade. Tentou fitar a janela longa e parisiense, o sol que ardia e o cegava por trás do vidro grosso ou o céu azul e sem nuvens. Um céu familiar que parecia ter realmente se recuperado do excesso de chuva da noite seguinte. Paris deveria estar linda aquela manhã. Sorriu para retribuir a saborosa graça no olhar da moça. Contudo, sua pele pálida continuava ligeiramente assustada. – Sim. – Falou simplesmente. Tocou com os lábios o café fresco que tanto adorava e ainda assim não sentiu o sabor evidente do liquido escuro. A noite não havia sido péssima. Apenas um pesadelo a modificou. O qual corria pelos campos de lavanda a procura da prima. Ela fugia. Não queria seu amor, sua devoção. Estava preso ao terror do isolamento. O silêncio os tomava. Todos os franceses poderiam estar dormindo àquela atípica hora da manhã, Paris estava paralisada pelo amor jovial dos dois. Encostou a xícara no prato mínimo a sua frente e tentou comer um pouco do croissant a sua frente ainda que não conseguisse degustar o alimento tamanha insegurança com o pesadelo anterior. Queria esquecê-lo, era apenas um sonho ruim, uma traição mental. Pegou com uma faca a geleia de amoras. Estava tão vermelha quanto sangue. Desistiu. Mal pôde ouvir o som da faca batendo em seu prato. Continuou a mordiscar as migalhas mornas do pão e procurou o fundo de sua xícara com os olhos azuis. Tentava dissimular alguma alegria, mas o pesadelo estava o deixando incrivelmente perturbado. Esqueceu-se de agradecer pelo café e o croissant. Ouviu as palavras severas da prima e colocou o pão na porcelana pura. – Ninguém poderá saber. – Começou temeroso, os olhos levantando-se para a face perfeita da jovem. Era difícil fita-la sem se lembrar da face quente e alaranjada de seu sonho. Ela ria. Gostava de vê-lo longe, de tê-lo afastado. Deu outro gole no café. Sentiu sua garganta queimar, mas não julgou que fosse o calor da bebida. – Também não quero voltar. Mas, se perceberem que sumimos podem nos encontrar rapidamente. Só no verão moderemos fugir. Logo após nossa chegada a estação. – Engoliu em seco. Seus olhos piscavam com sua insegurança e seu rosto começou a ter inexplicavelmente mais cor. Bebeu o café novamente. Os segundos se passaram silenciosos. – Amo seu café! – Falou com um sorriso. Ergueu a faca e passou a geleia de sangue nos últimos pedaços do croissant delicioso. Sentiu o sabor doce se contrastar com o amargo do café em sua boca. Era tão contrastante quanto à alegria colossal e a chuva gélida da noite anterior ou o seu medo absurdo com o sol morno e o silêncio aconchegante de Paris naquela manhã. Sorriu outra vez. Segurou os dedinhos de Nina e os fitou pensando nas tintas que usaria para pinta-los. Apenas uma coisa precisava ser dita. – Eu te amo.
Estreitou de modo dissimulado os olhos esverdeados quando Henri respondeu positivamente a seu questionamento. Se ele lhe dizia que havia dormido bem, deveria acreditar no jovem. Partiu seu croissant quase que em migalhas e observou atentamente a palidez da massa semifolhada e a negritude da geleia de amora madura. Ergueu o único pedaço intacto do pão e viu o reflexo avermelhado da fruta, mudando a direção de sua mira para os olhos reluzentes e enormes do primo. – Sei que ninguém poderá saber. – disse pousando seu alimento no prato de porcelana. Ergueu suavemente o canto dos lábios quando percebeu que não daria mais para comer. – Hogwarts está virando um inferno. Descobriram que mais um aluno foi assassinado depois do pequeno Johnson. – ela deu um suspiro tenso e jogou os cabelos escuros para trás, num ato impaciente. Tamborilou os dedos na mesa alta e gelada e fitou Henri, sentiu-se completamente estúpida ao citar algo tão sério depois de ter passado uma noite tão maravilhosa e aconchegante à companhia de quem amava. – Desculpe-me por falar sobre isso agora, mas é que eu simplesmente não aguento mais ficar naquele colégio… De receber cartas de mamãe, que são terríveis. – abaixou os olhos e deslizou as mãos no tecido fino e colorido que trajava. – Quero viver nossa vida logo. Sem ninguém para dar qualquer tipo de palpite ou nos obrigar a fazer algo completamente inútil. – desviou o olhar para a janela limpa a sua frente e fitou os prédios perfeitamente bem arquitetados, que poderiam lhe contar inúmeras histórias do passado de quem havia morado neles. Ainda com o olhar disperso, voltou a colocar as mãos na mesa e escorregou uma, lentamente, até segurar os dedos macios de Henri. Sorriu calma e educadamente com o elogio de sue primo em relação ao café que havia preparado para os dois. Ampliou a curva de seus lábios cheios quando o jovem disse que a amava. Só isso lhe importava. Não se importava no quanto ainda faltava para o verão chegar. A única coisa que tinha relevância em sua vida, agora, era o amor que ambos sentiam e iria mudar suas vidas que, até então, eram medíocres. Levantou-se da cadeira alta a qual estava sentada e pregou os olhos nos de Henri, ainda tinha os dedos do jovem agarrados aos seus. Alisou os cabelos loiros e finos do primo com serenidade e com um sorriso gentil, ajeitou suas sobrancelhas grossas e claras. O rapaz ainda estava sentado e, mesmo assim, continuava a ser mais alto do que Nina. – Amo-te… – sussurrou, colocando os braços em volta do pescoço de Henri. Ficou ainda mais próxima do primo e tocou-lhe os lábios avermelhados e quentes com os seus. Tudo o que mais queria era que aquele amor conseguisse atravessar as décadas e superasse tudo o que viesse a atrapalha-los. Que sempre voltassem um para o outro… Como era de costume.
A expressão pálida e agonizante de Henri começou a corar quando ouviu a voz suave de Nina. Seus lábios já estavam ficando secos com o susto colossal, mas passando os dedos pelos cabelos louros conseguiu regularizar sua pulsação intensa. Engoliu em seco e comprimiu os lábios se levantando lentamente. O susto de tê-la perdido era profundo e se transformava em uma angustiante vontade de vê-la outra vez, afinal, pelo que se via apenas assim poderia sentir a calma se misturar ao ar denso que respirava minuto a minuto. Vestiu o que julgava serem suas vestes íntimas que estavam comicamente perfumadas por pot-pourri de lavanda e colocou um robe por cima pensando no quanto a organização de Nina poderia superar a sua que já era notável. Fechou a porta do terraço para amenizar o vento frio que uivava pela casa dos amantes e fitou a Torre Eiffel iluminada pelo sol radiante. Sua face começou a se contorcer em um sorriso silencioso e este deixava claro que Henri conseguia finalmente enxergar a alegria que o sol trazia a tona. A cidade luz era felicidade, mas, sobretudo amar era consumir essa felicidade antiga. Sua mente se tomou por pensamentos sobre seu amor reprimido e pensou que era uma questão de tempo até estragar a beleza daquilo tudo. Fechou os olhos e encostou a testa na superfície fria do vidro. Era uma pena pensar que a iluminação serena também anunciava a chegada cada vez mais dolorosa da ida para Hogwarts. Não queria voltar e se pudesse ficaria com Nina para sempre no apartamento aconchegante e virtuoso. Desceu as escadarias amarrando o robe cinza e finalmente sentiu seu coração se aquietar. Seus pensamentos melancólicos sumiram em um instante quando a viu, tão sincera e serena, na cozinha de seu atelier. A visão angelical deixou sua face morna e suas mãos menos trêmulas. Nina jazia tão bela e doce que seus olhos azuis arderam diante da jovial inocência da garota. Sentou-se na banqueta que ficava virada para a cozinha aberta e observou esta encher as xícaras de café sem notar sua presença. A fumaça quente da bebida crescia no ambiente e sua face tranquila esboçava um sorriso que anunciava sua gratidão por ser amado por uma pessoa tão maravilhosa. Era confortante saber que alguém estava lá. Que não estava sozinho. Que não gritava no meio dos campos de lavanda por uma pessoa que queria fugir. Alguém estava lá por conta própria. Para se preocupar e ajudar no que fosse preciso. Sentiu-se seguro. Nunca havia se sentido daquele jeito em toda vida. A confiança era tão extrema quanto o amor dos dois. Sorriu. Amava. – Bom dia! – Anunciou como que tentando transformar tudo numa grandiosa surpresa. Captou o cheiro familiar do café que veio acompanhado do perfume de flor de maracujá de Nina. Estava pela primeira vez em sua vida verdadeiramente feliz. Queria observa-la para sempre. Queria senti-la para sempre. Continuou a fitando. Tudo pôde se desacelerar. A face rósea apareceu, o sorriso brando reluziu, o olhar macio o confortou. O amor precioso vivia.
Enquanto passava geleia de amora nos croissants, Nina observou o céu claro e limpo depois da chuva torrencial da noite a qual havia conhecido, definitivamente, todas as facetas do amor. O firmamento estava tão azul que, se eles estivessem à beira do Mar Mediterrâneo, o céu e o oceano seriam apenas um só. Como eles. Estava distraída, pousando os pratos de porcelana na mesa alta e enchendo as xícaras com o café quente que acabara de preparar; suspirou quando o vapor quente chegou a suas narinas, inundando-as com aquele cheio maravilhoso e característico do grão e, quando escutou a voz de Henri, estremeceu suavemente. – Dormiu bem? – perguntou com uma expressão levemente preocupada quando reparou na palidez do rapaz. Inclinou-se para frente encostou os lábios rapidamente nos do primo e empurrou um pouco a caneca em que havia colocado o líquido preto, oferecendo-lhe o café o qual ele dizia tanto gostar. Sentou-se de frente ao jovem e apoiou o queixo delicado na mão; começou a fitar Henri seriamente, mas os cantos de sua boca começaram a se curvar num sorriso brincalhão e um tanto constrangido. Não sabia exatamente como se comportar depois de tudo o que havia ocorrido na noite anterior, só sabia que teria que se acostumar com o incrível fato de ter o jovem sempre ao seu lado. Nina deseja simplesmente que as coisas fossem tão leves como estavam sendo naquele exato momento. Sabia que teriam muitos problemas para enfrentarem, porém, tinha a esperança que o amor e a compreensão que tinham um pelo outro fosse capaz de superar tudo o que iria vir pela frente. O amor deles era suficiente. Por mais que discutissem e se separassem durante o percurso, era sabido que eles tentariam ajeitar de qualquer forma tudo o que fosse capaz de separa-los, por mais que esse conserto demorasse algum tempo e lhe custassem ainda mais lágrimas. – Queria poder não voltar mais para Hogwarts. Tenho um pouco de receio do que poderá acontecer enquanto estivermos lá… Não sei por quê. – murmurou levando a xícara de café até os lábios róseos.
Vai, vai, vai!, sua voz dizia mentalmente, já que essa era a única alternativa que tinha, a não ser que estivesse pretendendo começar a gritar com gotas de chuva na vidraça para que todo o salão comunal pudesse ouvir. Essa, aliás, era a atividade mais atrativa do momento. Apostar corrida com gotas de chuva … A que nível o tédio havia chegado? Para Mary, o insuportável. Sentada em um dos recuos para as janelas, encarava aqueles pingos e os acompanhava por sua trajetória ao longo do vidro como se essa fosse a coisa mais interessante e curiosa do mundo a se observar. Talvez porque, no momento, realmente fosse. Com as novas normas impostas em Hogwarts, não havia nada a ser feito depois do jantar a não ser se enfurnar nos salões comunais ou simplesmente ir direto para cama e dormir feito uma pedra. Como a segunda opção fora descartada assim que percebeu sua falta de sono, não lhe restou alternativa melhor que sentar-se em algum canto do comunal e esperar um milagre acontecer. Era certo que poderia estar adiantando algum dever, estudando para os exames finais ou simplesmente ocupando sua cabeça de forma melhor, mas não estava com a mínima paciência para estudos e aparentemente todos os seus colegas de ano ou resolveram dormir, ou fazer seus deveres ou, então, cometer algumas infrações. E se estivessem fazendo esse último, desejava ter sido convidada para participar. Afinal, o maior acontecimento da noite havia sido a chuva que começara a cair, produzindo aquele barulhinho agradável que somava-se aos sons do ambiente aquecido pela lareira. Agora a ideia de deitar, mesmo que fosse para permanecer acordada, parecia bastante atrativa. Pelo andar da carruagem, seria bem possível adormecer ali mesmo, mesmo com algumas conversas dos companheiros de casa de outros anos. Droga, disse, novamente em sua mente. A gota oposta acabara de vencer a corrida.
As coisas em Hogwarts mudaram um tanto após a descoberta de mais um aluno assassinado por simpatizantes de Lorde das Trevas. Este terrível fato simplesmente deixava Nina intrigada e assustada, além disso, crescia nela a dúvida se iria ou não participar da guerra contra Voldemort. Henri, desde sempre mostrou seu desgosto em relação a tal assunto e, se ela realmente fosse participar da tão óbvia guerra bruxa, as chances de acontecer algo de errado com ela eram tão certas quando dois e dois são quatro. Era sexta-feira e, graças a Merlin, não havia ronda naquela noite fria e chuvosa. Nina estava rolando na cama e tentando se concentrar na revisão de sua síntese que havia feito para o teste de História da Magia. “Ok, já sei tudo sobre a União Branquietal… Que diabos farei agora?” – perguntou-se mentalmente enquanto enrolava o pergaminho e o guardava na gaveta de sua mesinha com um vaso de flores que havia colhido no dia anterior. Ficou deitada de bruços e observou o dormitório, todas suas companheiras estavam dormindo ou fingiam fazê-lo. Suspirou relativamente baixo e levantou-se, pensativa. “O toque de recolher já soou, nem dá para passar na Comunal de Henri.” – bufou enquanto ajeitava seu robe de cetim. Não via o primo há dois dias e sentia um pouquinho de falta da companhia dele e dos beijos que tinham que trocar escondidos, afinal, tudo o que menos queriam era que Hogwarts inteira soubesse do relacionamento incestuoso dos dois. Tudo bem que incesto era algo comum no mundo mágico, principalmente nas famílias puristas; porém, a relação não seria vista com bons olhos pelos alunos e ser assunto das fofocas do colégio nunca esteve nos planos de Nina e do jovem ravino. Desceu as escadas em direção a Sala e examinou o movimento; alguns alunos mais novos conversavam perto da lareira acesa, o fogo crepitava junto ao barulho da chuva que batia nas janelas, criando uma sinfonia leve, mas nada condizente com a estação a qual estavam. Enquanto passava os olhos pelo salão aquecido, avistou alguém de cabelos escuros e curtos; aproximou-se da pessoa, apoiando a mão na poltrona em que ela estava sentada e fitou o que a grifana fazia: uma aposta de corrida de gotas de chuva. – Acho que essas novas normas de segurança vão me matar antes do que qualquer aspirante a Comensal da Morte. – disse suavemente, sentando-se numa poltrona em frente a jovem. – Oi, Mary. – sorriu dobrando os joelhos e cruzando os braços como se aquilo fosse ajuda-la a se aquecer mais um pouco. – Desculpe-me pelo comentário um tanto… Macabro!? – falou rindo nervosamente.